Sou educadora e escritora

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sexta-feira, 1 de julho de 2016

ELA


Todos os dias, em público, um falso sorriso de serenidade. Era um número repetido. Nunca era um viver de gente de verdade. Talvez faltava a si ou mais uma gente dentro dela mesma. Parecia que alguns de seus pedaços voavam pelos ares. Nas suas desorganizações, o mundo não era inocente. Uma monstruosa cachoeira de desgostos jorrava no seu interior. Tudo se mostrava uma vida perdida. Possibilidades de consolo vagamente se apresentavam.
Qualquer música distante era um retorno ao passado cru. O tempo não tinha limites. Não respeitava as condições de uma vida que seguia marchando a passos lentos, curtos, presos, tímidos, inseguros... Nenhuma luz dentro de si era duradoura. Era uma caverna escura... Por isso, rir toda já não era mais possível. Como rir dançando dentro do redemoinho de sofrimento? Assim, ela só era dentro. Fora era cena. Até mesmo respirar um ar fino era jogo de aparências. Agora só existia distraída, reprimida... Talvez sua agonia vinha a conta-gota. Mas seu infortúnio não vadiava.
Seus gestos eram de muito cuidado, porém, de pouca alegria. Jamais esbravejava. Parecia nunca ir a parte alguma. Não havia espanto nem esbarro. Era de poucas ou tristes palavras. Sem tranquilidade, era serena. Com dor sempre em aberto. E, assim, era o que sempre não foi, mas resistia calada. Calada...
Todos os direitos reservados a Elany Morais

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

INTIMISMO


INTIMISMO 
Elany Morais

 Só que, sendo intimista, ainda me atrapalho com a profusão de coisas do mundo externo. Nesse estado de incompreensão estava eu quando encontrei, na rua, com uma amiga que há anos não a via. O celular dela tocou, era uma daquelas vozes femininas treinadas para vender pacotes promocionais de operadoras de telefonia. Logo desligou com um ar de aborrecida. Em seguida, abraçou-me, falou de suas realizações e, quando me perguntou o que eu havia feito durante todo o tempo em que nos separamos, comecei anunciar-lhe a minha pretensão de escrever. E sem mais nem menos, ela me perguntou: escrever o quê? Sobre o quê? Eu até pensei em responder dizendo que desejava escrever sobre economia, política ou mesmo religião. Mas eu respondi: penso em escrever sobre gente que ama e sofre, gente que não é gente, que já foi gente, porém, o mundo o transformou em outra coisa que não é gente. Ela olhou para mim com uma expressão fisionômica de quem não havia entendido o que eu dissera. E naquele momento,  foi com um pouco de pudor que olhei para dentro de mim por não entender o que estava ao meu arredor.


Depois até me consolei: não era humilhante não entender de todos os assuntos universais. Ninguém pode exigir de mim que eu tenha interesse por tudo o que pode ser importante para os outros. Além do mais, o maior interesse de todo ser humano é  si mesmo e, quem  não se volta para seu mundo interior é, certamente, por não saber fazer isso.

Caxias - MA, 12 de dezembro de 2014.

sábado, 23 de novembro de 2013

HIPOCRISIA

Desculpem-me, mas não entendo por que tenho que deslizar na contra mão. Por que a alma e a língua não são passageiras da mesma classe? Não podem cantar o mesmo repertório?

Suspeito de que elas podem jogar no mesmo time. Chutarem a mesma bola, entrarem no mesmo campo e falarem a mesma língua.

Desconfio que a verdade pode abandonar a mente e voar pela boca; que mentira tem poder de se representar, que a alegria não pode carregar a bagagem da tristeza. Por que a esta precisa dos ombros daquela?

Por que tenho que transformar palavras em jogos inúteis? Para que me serve a hipocrisia? Se a fraqueza está em mim, por que não reconheço a sua existência? Por que deixar o ódio ocultar o amor?

Sou adepta de que prazer não mata o corpo nem a alma, de que nenhuma forma de felicidade é porta para passagem proibida.

Defendo a ideia de que meu pensamento é minha voz externa, de que o embuste não edifica sua morada em meu terreno, de que o fingimento e a hipocrisia são hóspedes indesejadas em meu recinto.

Elany Morais

Todos os direitos reservados a Elany Morais
 

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

O EXTERNO

Paralisei-me ao ter uma visão assombrosa da verdade que lá fora estava.
Longe de tudo, encontrei o belo que não há no externo.
Ao sair da minha casca, muitos exterminaram minha pureza.
Eu e a ilusão nos embolamos no mesmo lenço.
Precisarei ignorar qualquer verdade verdadeira, posso criá-la!!!
O sentido das coisas não precisa ser o sentido terrível que há.
Basta que se olha para tudo com certa generosidade.
Não é essencial atingir reino algum.
Não viverei reino horrendo de nenhum.

Elany Morais

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