Sou educadora e escritora

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sábado, 7 de maio de 2016

QUANDO EU AINDA NÃO ERA

Quando eu ainda não era, dentro da noite, em tudo não se pensava. Não havia verdades inconvenientes, propostas indecentes, acordo forçado, abuso pretendido nem socorro negado.

Agora, eu sou, e não há equilíbrio que me consinta. O mundo e eu estamos em desacordos. Ele me impõe regras, mas eu sou as regras. Então, como ser sem ser? Por isso, vivo no engasgamento, que me laça e me emperra. Talvez esse seja o preço de não ir para a cova na ignorância. Por enquanto, continuo sendo, mas sem esperança de algum indício elucidativo. Creio deitar-me na eternidade sem viver completamente.

Quando eu ainda não era, a liberdade alheia não me era oferecida. Não havia valor desconcertante, não havia filosofia de velhice nem excessos. Não existia nobreza na tristeza, o coração não pulsava, o corpo não era submisso, as mães não eram de ventos nem de mares. A vida não era pequena nem enorme, tudo era nada... Como algo poderia me jogar no chão? Não havia sentidos intelectuais ou primários, não havia movimento ou fúria silenciosa e minuciosa, a chuva não era de lágrimas ou de pedras... Eu não tinha que sobreviver em alguma direção.

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quarta-feira, 16 de setembro de 2015

DESGOSTOS PARA TODOS OS GOSTOS

DESGOSTOS PARA TODOS OS GOSTOS
Por Eany Morais

Lamentações, lamentações, um monte de inutilidades. Por que lamentar? O desgosto sempre virá, calado, taciturno, em seu horror, com vestes sepulcrais. É no silêncio que ele nasce, arrancando de nós os nossos tristes ais. Será que há como desvendar a causa desse mal que nos faz tão outros e outras? Quantas vezes já fui rasgada pelas unhas do desgosto! E quem não se teve sob suas garras afiadas? Até Ricardo Reis quando disse que não teria mais desgosto foi por puro desgosto. 

   Ah! Por que não querer o que se tem e desejar o que nunca haverá de se ter? Se diferente fosse disso, teríamos alegrias sem ter  desprazer.  Até penso que se gostar fosse desgostar, todos gostariam. Quem sabe não estamos seguindo o conselho de Marce Proust, que considerava  o desgosto condição primordial para o desenvolvimento das forças do espírito! O fato é que existe de tudo para todos, como há desgostos para todos os gostos. Bem me lembro de  Doantien Alphonse François que proclamava que seu maior desgosto era saber da inexistência de Deus, assim, jamais teria o prazer de insultá-lo, e o desgosto daquele que entrou numa fábrica para pedir um emprego e de lá saiu empregado? Há também o desgosto daquele que vive a esperar a extensão da linda da vida, mesmo sabendo que o imite é o nada.  O desgosto de Caio Fernando Abreu também entra no rol dos inusitados, ao proferir: " E tudo que eu andava fazendo e sendo eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo (...) que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era."

Enfim, cada um com sua faca afiada submersa em sua alma


Caxias - MA, 16 de setembro, de 2015.

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sábado, 14 de fevereiro de 2015

PARTES

PARTES DE MIM
Elany Morais

Quem diria que uma
 parte de mim é furação
e a outra; calmaria??
Que minha alma repouse
em lugar certo, em plena
alvorada, porque
uma parte de mim é despedida
a outra; é chegada.
Que minha coragem
crie asas porque
uma parte de mim é medo,
a outra; desdém.
Que meu espírito
seja costurado com fios
firmes porque uma
uma parte de mim é dor,
a outra; também.
Que não haja hora para
o fim da festa porque
uma parte de mim é solidão,
a outra; multidão.
Que a fraqueza não pegue
pelos braços porque
uma parte de mim é distância,
a outra; é abraço.
Que meu equilíbrio
não role pelo ralo porque
uma parte de mim é o que falo
a outra; é o que calo.

Caxias - MA, 13 de fevereiro de 2015.

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segunda-feira, 15 de setembro de 2014

INCOERÊNCIAS

INCOERÊNCIAS
Elany Morais

Não sei por que as coisas da vida aparecem com certas envergaduras. É a noite que não finda, é o grito que não veio, é o canto que destoa, é o belo que é feio. E como pode o mundo suportar isso? É a fome que corta..., é a terra que se abre, é a chave sem porta, é o sonho que se acaba. Não hei mesmo de entender o que mais se pode suceder. É o baile do desencontro, é o show de enganos, é a linha sem ponto, é a liberdade sem cigano. E como aceitar tantos imprevistos? É a vida que seca, é o morto que vive, é o santo que peca, é o crime que é livre.

Caxias - MA, 15 de setembro de 2014.

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domingo, 27 de julho de 2014

INCOERÊNCIA HUMANA

INCOERÊNCIA HUMANA (Crônica)
Elany Morais

Complicar a vida é tarefa do ser humano. Carrega consigo o desejo de separar o que junto serviria de porta para a alegria. Repudia o que é seu, mesmo sem motivo para rejeitar o que lhe seria um ...bem.

O homem não quer a vida em preto e branco, deram-lhe cores, as mais variadas possíveis, além de a possiblidades de criar mais e mais outras. Mas ele teria que encontrar uma forma de se privar de todos esses elementos: "homem que é homem não usa a cor rosa." " Uma boa dama antes de crescer não deve usar azul." " A fragilidade vestiu-se de rosa." A tragédia se apoderou do preto." "A paz salvou apenas o branco." "A riqueza faz-se de amarelo." " A sorte chega de branco." O preto é o escuro, o escuro é o inferno.

Todos têm corpos. Apenas um gênero pode exibi-lo. Mulher, tu nasceste com seios? Esconde-os! Se todos verem como são teus seios, tu deixarás de ser honrada e bem-amada! Guarda tuas pernas, se tu as exibires, teu lar será injuriado, difamado, teu esposo deixará de ser homem. Uma simples contemplação de pernas e bundas banirá a sexualidade alheia(" homem que é homem não deixa a mulher mostrar a bunda para ninguém.") Veja bem, apenas o homem é senhor do seu corpo e de seu cônjuge. É assim o ser humano, junta o que é separado e separa o que deveria ser juntado.

Caxias - MA, 27 de julho de 2014.
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sexta-feira, 15 de novembro de 2013

TERRENO ALHEIO

Teu coração é um jardim sem flores
com muitos medos e poucos amores.


Tu reinventas tua cativa solidão
com mágoas caladas e contradição.

Tua boca proclama vozes de adeus
sem acolher os desejos meus.

Tu em silêncio sempre vai embora
recolho meus cacos sem muita demora.

Elany Morais

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