Sou educadora e escritora

sábado, 10 de janeiro de 2015

INSÔNIA

INSÔNIA
Elany Morais

Tu, ingrato sono, só chega na madrugada.
Meu viço poderia acordar puro e vibrante,
Mas meu coração faz a vez do tripulante
Por não receber da alegria a cor imaculada!

Tua ausência me traz uma irritação intensa,
Só descanso finito é o que mais quero,
Noites a fio, com olhos hirtos te espero
Nas noites, frias, impávidas e densas!

Na tua demora, meu coração palpita,
Não ouço vozes, cantos ou soar do vento,
A mente povoa de mórbidos pensamentos,
Mas hora rezo pela salvação bendita!

Fico horas em pensamentos absorta,
Nada chega ao meu pobre entendimento,
Sinto que a ausência do sono é meu tormento,
Deixando meu espírito fraco, quase morto!


Caxias - MA, 10 de janeiro de 2014.

Todos os direitos reservados a Elany Morais

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

FACES DA VIOLÊNCIA

FACES DA VIOLÊNCIA
Elany Morais

A força desmedida contra ti e contra mim
É violência.
Os pensamentos genuínos que brotam de mim e de ti
É a essência.
O ar que salta das narinas
É existência.
Vontade solta não é paz.
Egoísmo é o meu tanto faz.
Negação do ser
É o falso viver!
Juntar chagas dos outros
É o eterno padecer.

Caxias – MA, 09 de janeiro de 2014.

Todos os direitos reservados a Elany  Morais


SACO DE DINDIM

Por Elany Morais - SACO DE DINDIM -

O que vou relatar é tão misterioso quanto à morte. Eu queria poder não usar o senso melancólico que habita em mim, ao lado da minha veia humorística, que é o que me redime de toda desgraça que povoa a vida.

Por algum tempo, as áreas rurais do município de Caxias, do Maranhão, eram tão isoladas do centro urbano que muitos dos moradores desses locais esperavam o verão chegar para irem à cidade, fazer seus compras básicas. Dias festivos eram quando muitos se destinavam para lojas, comércios... Era uma farra. Nesses dias, os cabelos ganhavam nova roupagem. As senhoras amarravam um pano sobre a cabeça, o que elas chamavam de "touço". Por baixo das saias, fazia necessário um short com bolsos para guardar os seus tostões.

Noite de véspera do grande acontecimento( ida para a cidade) era noite de muita ansiedade e pouco sono. À espera da partida para a grande aventura era infinita. Três da manhã, pés e rostos já estavam asseados, roupas brancas, limpas e mal passadas já estavam nos corpos. O café descia pela garganta aos atropelos. Portas de talos batiam às pressas. Era preciso andar muitos quilômetros para não perder o transporte, que nunca esperava pelos retardatários.

À distância, olhos fitavam o carro que já acelerava para dá partida. O transporte estava bem caracterizado para o feito. Uma lona cobria os bancos de madeira, assentos dos viajantes, era o que todos o chamavam de pau-de-arara. Por fim, todos se acomodavam em seus devidos lugares.

A viagem se inicia. Nos primeiros minutos, o silêncio tomava conta de todos. Com o decorrer do tempo, começavam-se as conversas, os causos a serem contados, o viado que foi morto, a cutia que fugiu, o vizinho que foi cobrado. Havia momentos, que parecia que as línguas pediam pausas. Ouvia-se suspiros, promessas... Depois risadas.

Momento da chegada à cidade, cabeças erguiam-se, tudo parecia imponente para aquelas almas simples e cheias de esperanças.
Era preciso, às pressas, comprar tudo do que se precisava até o próximo verão. Dever cumprindo. Era hora do retorno. O estômago gritava alimento, o cansaço chegava sem permissão. Todos novamente, retomavam a seus lugares. De repente, uma novidade, um garoto, ao lado do carro, gritava freneticamente: " olha o dindim". Conceição pensou:

- Já vi tantas pessoas dizem que esse tal dindim é bom. Não custa nada experimentar, além do mais,  a fome já me assedia.

Foi então, que Conceição resolveu comprar o tal geladinho, como é conhecido em outras regiões do Brasil. Ela recebeu o alimento com um olhar bastante curioso. Apalpou-o, e começou a passar a língua no saco do dindim. O carrou saiu, com um tremor de quem está prestes a se desmontar ali mesmo. O tempo passa e D. Conceição continua a acariciar o saco do dindim com a língua, a temperatura esquenta, e por fim, o geladinho transforma-se apenas em um líquido quente, intragável. Já ao chegar em casa, D. Conceição olha-me, mostra-me o saco murcho, com tudo dentro, tudo aquilo o que ela deveria ter consumido, e diz-me:

- Vou jogar isto fora. E ainda dizem que isso é bom.

Eu olhei atentamente para D. Conceição, percebendo que ela não havia furado o saco do dindim. Fiquei algum tempo pensando como aquela senhora passou a viagem toda com aquele saco na boca sem ao menos perfurar o recipiente para poder saborear o alimento. Então, eu falei com uma vozinha tímida:

- D. Conceição, a senhora teria que fazer um furo no saco do dindim para poder ingerir o que havia dentro dele.

D. Conceição olhou para mim, com um ar reprovativo e lançou dindim quente e murcho, bem longe. Eu o vi dá cambalhota no ar.

Desde esse dia que passei a dizer isto: fure o saco, sinta o conteúdo que há dentro dele, para poder julgá-lo com propriedade.

Caxias – MA, 09 de janeiro de 2014.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

COLO-ME

COLO-ME
Elany Morais

Eu procuro o eu, escondido em mim mesma.
O que pensei que fosse eu, não era assim,
Cada pedaço meu estava fora de mim!

Colho cada parte que ficou num canto,
Minha alma hoje descansa, enfim,
Soltando ainda poucas notas de um canto
Que festeja a junção dos pedaços de mim!

O Mundo quis-me dormente, sem calma,
Sem cura, sem amor, toda indecente,
Com pedaços contados, sem viço, sem alma
Mas colo-me toda para não ficar doente!

Caxias - MA, 08 de janeiro de 2014.


Todos os direitos reservados a Elany Morais

BONECA DE MILHO

BONECA DE MILHO
Elany Morais

Eloísa era uma criança, de aproximadamente cinco anos de idade que sonhava em ter uma boneca com cabelos, mas a vida de extrema pobreza não permitia a realização desse simples sonho. Acontece que Eloisa não era como qualquer outra criança, era especial na sua pele pálida, franzina, escassa de sangue e de quase tudo, menos de imaginação. Nos dias claros, o vento tinha sempre a missão de sacudir suas tranças longas e loiras. A sua voz parecia o som surdo de um lago manso. Porém, nos dias mais sombrios, este som era praticamente inaudível. Mas ela continuava com o pensamento fixo no desejo de possuir uma boneca com cabelos apesar das privações.

Sim, a privação sempre presente parecia ser o destino da pequena heroína que foi gerada no acaso dos infortúnios de uma mãe que não sabia amar os seus rebentos e, mesmo tão pequena, já percebia que, nas casas vizinhas, sobressaiam-se as figuras de um homem e de uma mulher amorosos que costumavam ser chamados de pai e mãe pelos pequenos como ela. Pobre Eloisa, nem pai ela tinha e parecia que essa ausência era apenas o começo de muitas ausências e privações.

A verdade é que Eloisa tinha que lidar o tempo todo com a falta. Falta de pai, falta de uma mãe amorosa e protetora, falta de alimento para o corpo e para a alma, falta de amor, respeito, carinho, cuidados básicos que uma criança precisa para crescer saudável física e emocionalmente. O que se pode dizer é que Eloisa precisava ser muito resistente apesar da carência e do medo que rondavam a sua vida constantemente.

Nada parecia um conto de fadas na vida de Eloisa, raras vezes, ao amanhecer, ela despertava com tranquilidade. A sua rotina era ouvir, nas primeiras horas da manhã, a voz seca, fria e ríspida da mãe gritando por ela. Eloisa sempre obediente e disciplinada, não compreendia as razões pelos maus-tratos que recebia da mãe descompensada e constantemente raivosa. Era nesse momento que tudo doía nela. O vazio se agigantava. Timidamente, lançava um olhar piedoso e temeroso para a mãe, na tentativa de encontrar um consolo, uma esperança, mas cada tentativa de busca de proteção na pessoa que a deveria proteger, era um fracasso porque esta sempre a repreendia com olhares frios ou com castigos físicos.

Mas para Eloisa os castigos físicos pelos quais passava doíam menos do que os psicológicos, pois em seu desespero ela sempre apressava o ato de apanhar para não ter que ouvir as injúrias, os xingamentos da mãe. Contudo, esse mar de tortura, onde habitava Eloísa, não tirava a sua capacidade criativa e muito menos o desejo em possuir uma boneca com cabelos, de sonhar, de voar, de alçar voos para os mais distantes lugares. Eloisa se agarrava aos sonhos e nos sonhos ela via apagar todas as cicatrizes físicas, em suas costas, deixadas pelas surras que recebia da mãe. Ela não mais sentia um cabo de vassoura descer em sua cabeça por ter esquecido de se calçar ou por não ter pedido a bênção para mãe. Também não ouvia mais as pessoas de sua casa dizerem que ela era lenta, preguiçosa, imprestável. Enfim, em seus sonhos, ela não era objeto de satisfação sádica da mãe e das irmãs, nem motivo de zombaria para quem quer que fosse daquela casa.

As pessoas pouco sensíveis entorno de Eloísa julgavam o seu comportamento de maneira destrutiva. Era vista como alheia, lenta, sem viço, sem vontade, sem força e sem coragem de ousar ou desejar. Fossem quais fossem as razões de Eloísa assim parecer aos olhos dos outros, dessa forma, o certo é que ninguém possuía mais desejo e mais determinação do que ela. Eloísa ousou querer. Em meios as poeiras e matos secos retorcidos, sem estrada e sem sonhos, ela quis, não muito, mas apenas uma boneca que possuísse cabelos. O que era drama infantil, tornou-se uma história de poder imaginativo e de grandes realizações, porque possuir uma boneca com cabelos  era tudo o que Eloísa queria.

Esse desejo se agigantava no peito. Vinham-lhe promessas fortes, mas a fortaleza dessas promessas só durava o que dura os sonhos: muitas das vezes, menos de a metade de uma noite. Isso porque na casa interna e externa de Eloísa, o nada ganhava formas inimagináveis. Mas quando, percebeu que somente ela seria capaz de realizar seus sonhos, o nada transmutou em tudo, o tudo concreto, palpável.

E foi num dia quente, que Eloísa saiu, contando os passos, para que uma ideia lhe surgisse. Ideia que propiciasse a realização de seu grande encontro com a boneca de cabelos. Foi nesse vagar, que deparou-se com um milharal. Ela não acreditou no que viu: uma boneca com cabelos. Para muitos que foram fartos de toda sorte de brinquedos, quando criança, podem achar esse fato uma banalidade, mas para Eloísa, possuir uma boneca com cabelos era uma grande conquista. Seu desejo fora realizado, quando ela viu uma espiga de milho, que aos olhos dela, era uma linda boneca, com longos cabelos. Os dois pequenos olhos verdes faiscaram diante da espiga de milho.

Nesse momento, ela agarrou-se à espiga de milho e tudo se transformou em festa. Logo, percebeu que sua boneca precisava de roupas especiais. Pensou, pensou... Como poderia fazer roupas? Sem muita demora, lembrou dos recortes de pano jogados no lixo pela sua mãe. Então, correu, apressadamente, amparando a boneca sobre o peito, com muito cuidado, para proteger os cabelos do seu novo brinquedo. Ao chegar em casa, ofegante, pôs-se a remexer objetos que para muitos seriam imprestáveis.
- Pronto! Disse ela.
-Encontrei a mais bela roupa para minha boneca que tem cabelos!

Eloísa havia encontrado um pedaço de pano duro, retorcido, gasto pela ação do sol, do vento e da chuva. Mas para ela era tudo que precisava. De imediato, viu um pedaço de barbante, e pensou:

- Está tudo completo.

Então, pegou o sabugo de milho, que na verdade era o seu mais grandioso brinquedo e o embrulhou sobre o pedaço de pano, que foi encontrado a muito custo. O barbante foi o remate final. Eloísa amarrou o pano envolta do sabugo, e agora sua boneca estava perfeitamente vestida.

 -Pronto, pensou ela.

Eloísa deteve-se por alguns instantes bastante contemplativa. Ela olhava fixamente para os cabelos da espiga de milho. Mas era um olhar de grande satisfação. Ela mais conversava do que murmurava consigo mesma. Eloísa, num estado de encantamento, entendia que aquele brinquedo era ela em si, sem que nada lhe doesse. Nesse momento, Eloísa fazia grandes descobertas: descobria o prazer, e principalmente, o poder que possuía de moldar a realidade em seu benefício. Agora, ela sabia fabricar suas realizações sem sofrer do mal de não entender o que se sente. Não se traía diante da boneca. Não permitia que o desamor alheio lhe roubasse aquele momento sublime. Eloísa não abriu porta para sentimentos contraditórios, para convulsões conflituosas, para dores irredutíveis, por fim a alegria tomou conta de Eloísa.

Todos os direitos reservados a Elany Morais


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

ENVELHEÇO

ENVELHEÇO
Elany Morais

Os dias correm, o espelho grita que envelheço
Que o vento levou quase toda minha mocidade,
Que as marcas do tempo no meu corpo já está impresso,
Que  que dor com pressa no meu ser invade,
Que toda força que ainda me reveste
Sumirá, a me deixar em pleno desespero
Como se nada mais por fim me coubesse
E no fim de tudo não serei mais do que um verme,
Devorado por tantos outros, sem nenhum cuidado,
Sem a certeza de que um dia para o mundo voltarei,
Com um corpo novo, completamente reformado,
E com olhos vivos tudo atenta olharei
Como se todo universo fosse para sempre meu
Sem o temor de que tudo de repente se tornasse o breu!


Caxias - MA, 07 de janeiro de 2014.

Todos os direitos reservados a Elany Morais

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

BASTA

BASTA
Elany Morais

Aturo
O inseguro
Por trás do muro!

Aturo
O mundo duro
Com olhar turvo!

Coisa alguma
Aqui é pluma!

E se eu fosse
Um gato,
Um galo
Um pato

Tudo ia para
O ralo!


Caxias - MA, 06 de janeiro de 2014.

Todos os direitos reservados a Elany Morais